domingo, 4 de janeiro de 2009

A dor que deveras sente

Câmara escura

Eu queria fazer um poema em que as palavras
fossem a medida exata do que eu quisesse dizer.

Não escrevi o poema...

Eu queria um amor que da chama tivesse o ardor,
o brilho, o dom de mover-se graciosamente,
resistindo ao vento e recuperando-se vertical
em suas raízes profundas.

Desisti de amar...

Eu queria uma fé que fizesse ver o visível e o invisível
com a segurança do garoto que vaga de olhos fechados
por todos os desvãos de sua casa.

Tropecei no primeiro paradoxo...

Descobri, afinal, que o verdadeiro poema
é o por-fazer-se-com-palavras, chamas,
que o amor é o por-achar-se no que não tem medida,
que a fé é o poema que ainda não escrevi
e o amor que ainda não achei na câmara escura da vida.

(18.abril.1995)





Meu rio

Meu rio é como se fosse.
Tem a graça feminina
de prometer (e não cumprir).
Fecunda as águas perenes
e segredos sussurrados
nas ramas das ingazeiras.
(Choveu encheu...)
Espumante torrente ainda há pouco.
(Correu, mar bebeu...)
Agora modesto regato.
Não se passa no meu rio duas vezes...
Rio sem liquidez.
Mas tem fúrias napoleônicas...
Sangrou em Orós.
Saltou barrancos em Jaguaribe.
Rugiu em Castanhão.
Acuou em Tabuleiro.
Espreguiçou-se nas várzeas do Limoeiro.
Sumiu nas águas baixas do Aracati.
Meu rio, já!
Rio dos Jagurares.
(Abril/maio de 1986)






Rumores de ante-sesta



Além bate um martelo
no metal de uma voz radiofônica,
e estilhaços de som de uma balada
me ferem em semi-sono.
Zumbidos indistintos se desmancham
nos túneis dos ouvidos.
Tênues raízes de um sonho
flutuam em água turva.
Pouco a pouco habito um mundo informe
por trás dos olhos cegos e do ouvido surdo.
Infinito parênteses,
sem dor, sem alegria do que fui,
nada mais
que uma vaga lembrança inconseqüente.

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